
“O tempo precede o Universo. O Universo é o resultado de uma instabilidade que sucedeu a uma situação que a precedeu. John Wheeler desenvolveu o conceito de Observer Participancy Description, onde é o observador, o homem, a consciência, que cria o tempo, que não existiria em um Universo sem homens e sem consciências. Ao contrário, para mim o homem faz parte desta corrente de irreversibilidade que é um dos elementos essenciais, constitutivos do Universo”.
Noite. Sentado em minha sala, contemplo a rua e bebo cerveja. Chove lá fora. Tudo está quieto e tranqüilo, a não ser por uma ventania razoável que provoca um leve farfalho nas árvores e faz placas de ferro se contorcerem aqui ou ali: tlec tlec tlec, estalam, cedendo à força do vento; e um telhado de zinco ao lado, martelado por grossos pingos de chuva.
Fora isto, o mundo é silêncio.
Um vento frio invade a sala. Levanto para fechar a janela e posso ver o céu de um novo ângulo. Lá no alto, dentre as nuvens, desponta uma lua redonda; gotas brilhantes de chuva densa refletindo o luar, asfalto molhado, ruas vazias... e ninguém ousa encarar o temporal, apenas um valente cachorro, indeciso sobre buscar abrigo ou continuar vagando sem rumo por aí. Ele está perto, de tal forma que posso ver a água escorrendo de seus pêlos molhados, cão solitário na chuva, que começa a atravessar a rua num trote desajeitado. Que cena sem graça, que noite tediosa!, e viro-me em direção ao centro da sala, buscando algo agradável de se ver...
SKREEEEEEEEEEEEEEEE
BEEEEEPPP
A freada brusca desperta minha curiosidade mórbida. Espero impaciente um som de batida, antecipo delírios com gente sofrendo, carros destruídos, sangue e morte e delícias – finalmente alguma ação nesta vida. Nada acontece. Da janela espio lá fora, alimentando esperanças – que mostram-se vãs. Ali, onde antes caminhava o cachorro, encontro um carro parado, faróis iluminando o breu da noite nublada – e a cena diz tudo: o veículo, deduzo, foi freado às pressas, a fim de evitar passar por cima do cão; este, assustado, disparou em direção a uma esquina, e saiu de vista entre as construções; depois, uma buzina foi acionada com atraso, tentando advertir o animal de que não deveria mais fazer isto.
Então, vagaroso, o carro retoma sua marcha e tudo volta à calmaria. Permaneço em pé escutando o vento, as árvores, as placas e o telhado de zinco em sua eterna monotonia. Uma trovoada longe adiciona novidade aos sentidos: primeiro luz. agora som. A mente viaja. Rememoro um menino na escola, feio e sozinho, camisa por dentro das calças e calças por sobre o umbigo. Uma professora tímida e magricela está escrevendo na lousa, aponta para mim e me ordena que leia. Sinto-me obrigado a dirigir a palavra para uma classe inteira de monstros sujos e maus. Quando levanto, atrapalhado, deixo cair a lancheira – ao que todos riem, e ouço comentários de deboche. Sem jeito e envergonhado, tiro a camisa de dentro das calças, respiro fundo e digo: “Antes de parar por completo, o veículo, que andava a uma velocidade X, ainda percorreu Y metros. Se não considerarmos o atrito, temos como resultado uma desaceleração de Z segundos”.
Bem a tempo!, grito animado, esquecendo a vergonha. O cão fica vivo!
As pessoas odiosas riem e as faço sumir. Sou grande e não mais as temo. Sozinho novamente na sala eu sento, bebo mais um pouco e repasso os eventos na cabeça. Carro. Cão. Freada. Carro percorre a rua. Cão atravessa a rua perpendicularmente ao trajeto do carro. Carro freia. Carro. Cão. Freada.
Minha alma ferve. Ora, se nisto tudo não há um grande mistério, uma das maiores incógnitas ao entendimento! A formação de uma cronologia, a sucessão de eventos: tudo acontece no tempo e graças ao tempo! Então um peso força minhas pernas: a professora de física está sentada em meu colo, braços enlaçando meu pescoço, veste camisola. Não entendo, mas lhe pergunto entusiasmado: “algo é mais misterioso que o tempo?” Lânguida, ela sorri e responde: “Deus”?, ao que reajo contrariado: “Não!, deus não existe, pronto! alguém pode provar? – não podemos sequer senti-lo, você pode? A gente imagina, especula, inventa ou acredita...; mas o tempo... ora, quem ousa dizer que este não existe?... mesmo não podendo tocá-lo, sabemos que está ali!!”
- Oh, querido, deixe isso pra lá... hmmmm... o que é isto aqui em baixo?
Uma mão gelada toca meu corpo quente. Tudo muda. Coisas desaparecem, breve momento de torpor. Vejo braços peludos saindo de mim. Tento cofiar a barba, intrigado, mas ela não está mais ali – e isto me intriga ainda mais. Minha consciência habita o corpo de um homem importante, um bêbado ilustre do século XVIII. A taberna é escura e meus amigos Hume e Kant, pouco afeitos ao lugar, discutem suas teorias enquanto encho a cara alegremente. Não gosto do assunto. Não me meto. Prefiro flertar com uma bela atendente que caminha entre as mesas. Hume está exaltado:
- mas o que é isso??? o tempo é simplesmente uma idéia do nosso espírito, forjada a partir da sucessão das idéias e das sucessões!
Sinto um enjôo.
- Ora, começa Kant com o dedo em riste, o tempo não é um conceito assim empírico, derivado de qualquer experiência... é, isto sim...
Aplausos e ovações abafam o resto da frase. Ainda estou tentando ouvir Kant quando me dou conta: é o futuro e sou um homem importante, um físico lunático neo-newtoniano, comunista ateu e colorado. Tenho problemas com álcool. Estou bêbado, e acabo de receber o Nobel por derrubar a Relatividade Geral de Einstein. Aceno para as câmeras, sou muito, muito importante, flashes aqui e ali, sim senhor, sou fodão, e um repórter quer me entrevistar. Uma palavrinha, senhor Cemate? Oh, mas é claro...
E vêm aquela clássica:
- Qual é a importância do tempo?
- Ora. você não sabe?
- Não, sou um jornalista e não sou obrigado a saber das coisas.
- Ah é?
Tento socar o infeliz e acerto o vazio. Ainda chove lá fora, telhado de zinco, árvores, etc... Eu: estudante de jornalismo, e como tal me pergunto: por que estou vendo essas coisas, qual é a importância de tudo isso para mim?. E, sem poder evitar uma exclamação de espanto, sou desviado desses pensamentos ao reparar uma mudança lá fora. Não mais chove água, e sim páginas de jornal. Algumas desfilam em frente à vidraça. “ESTUDANTE DE JORNALISMO SE SUICIDA EM NOITE CHUVOSA”; “POLÍCIA FALA EM CRIME PREMEDITADO”; “DELEGADO DESCONFIA QUE ESTUDANTE FOI EMPURRADO POR COLEGAS DE REPÚBLICA”; “PSICÓLOGOS ESCLARECEM QUE DEPRESSÃO DO SUICIDA FOI CAUSADA POR ABUSO DE ÁLCOOL: em nota divulgada nesta manhã...”.
Agarro um destes jornais e o trago para dentro. Começo a folheá-lo em uma sala de aula silenciosa, durante uma entediante aula de Técnica de Reportagem ou qualquer coisa que o valha. A cabeça martela de ressaca, a lousa está repleta de um conteúdo que não anotei, o professor discursa:
- o jornalista deve fazer o intermédio entre a informação e a sociedade. Dele, não se exige que saiba das coisas, mas apenas que saiba a quem perguntar sobre as coisas. Por isso, sua habilidade deve ser a de coletar os depoimentos e alocá-los nos espaços das fórmulas textuais dedicados a tal finalidade, blá blá blá.... Hoje, vou lhes ensinar a principal de todas as fórmulas de texto jornalístico contemporâneo, o lead e pirâmide invertida.
- Professor! Como surgiu o lead?
- Ahmnnn...
Não sabe.
Foi treinado para isso e está treinando para isso.
De minha parte, também não sei que dia é hoje, e estou em uma praça discutindo com alguns colegas. É minha vez de discursar: “O lead nada mais é que um reflexo da modernidade, da sociedade industrial e, dentre outras coisas, de nossos avanços na quantificação do tempo. Foi-se o tempo do tempo qualitativo, em que homens se orientavam por astros. Primeiro é o calendário, depois surge o relógio em tal século, populariza-se em outro, e enfim tornamo-nos tão dependentes de horas, minutos e segundos que nossa sociedade, esta civilização moderna, não poderia existir sem tal instrumento de medição do tempo. Da mesma forma, um sujeito que se gradua em jornalismo e não estuda nada além do manual de redação da puta-que-pariu vai depois pro mercado de trabalho jogar bosta na cabeça das pessoas. É tudo uma relação de causa e conseqüência, de continuidade, um entrelace através do tempo”.
Alguns concordam, outros discordam. Ouço me acusarem de arrogância, enquanto beberico uma cerveja em minha sala e assisto ao telejornal. Reparo no apresentador e o invejo por ser mais bonito do que eu. Um dia serei âncora de jornal, todos me respeitarão, você e você, sim, e você também, mesmo que derrube a lancheira, mesmo que use a camisa dentro das calças. As gostosas vão ser loucas por mim, e me livro daquela professora magricela...
Chove lá fora e quero me suicidar. Imagino as manchetes nos jornais e desisto. Uma mosca pousa em meu joelho. Não me incomodo. Não reajo. Ela vive apenas 24 horas, disseram-me...
...que aproveite a sua breve vida...
Cemate
8 comentários:
ta aí um cara que consegue organizar tudo que leu, viveu e pensou durante uma fase e transformar num belo texto.
sublime
não vou tecer comentários reflexivos, apenas que é foda!
eu queria comentar esse texto, mas meu ego não deixa.
todo o texto é muito bom,muito bem organizado, mas o final foi sublime.
sou fã desse cara.
putz! sem mais comentários...
eles ali em cima já resumiram tudo.
;)
vamos ver como será agora.
Matte, escreva um texto pra vermos se tu não é que nem o Sansão!
hehehe
foi por isso que tu cortou o cabelo?!
=P
"o rock hoje em dia já mudou. é por isso q eu cortei o cabelo." (Raul Seixas) matte, n seja uma fraude musical!
Zé diz:
Ducaralho! Nem vou comentar, apenas ficar em silêncio, que costuma gritar até fazer os ouvidos sangrarem...
"Então o senhor não ouve nada, não ouve a voz tenebrosa que grita por todo o horizonte, e a qual se costuma chamar silêncio?"
William Saroyan, em O Audacioso Rapaz do Trapézio Suspenso.
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